Os 10 primeiros anos

Ouvimos sons de um bebê chorando, gritando, chorando, gritando. E uma mãe desesperada, se questionando: O que essa menina tem? 
O ano era 1967, a mãe de 23 anos já tinha uma filha de 2 anos e 5 meses. Em março nasce Adriana, uma bebê fofinha que não para de chorar, segundo a mãe, o choro acontecia com uma certa frequência. Seria fome? Refluxo? Azia? Nem o avô, que era pediatra, soube ajudá-la.
O fato é que essa criança deixou essa mãe tão desgastada que ao saber que estava grávida, novamente, a mãe quase surtou.
Os anos foram passando e o choro foi se transformando em dificuldade de comer: " Essa menina se alimenta de banana!" Era isso, ela não gostava de muita coisa, tinha uma certa seletividade alimentar (oi??!?! O que é isso? Frescura?). Mas a essa altura, já com 3 filhas, vai comer o que tiver na mesa, e foi assim que ela aprendeu que comer era uma coisa chata, então demoraaaava, era sempre a última a sair da mesa: "Anda Adriana, acaba logo essa comida"
Gostava de batata, arroz, feijão, carne e variações. E banana! Não era chegada em doces, mas amava um macarrão, salgados, hambúrguer, tudo que era carboidrato. 
Essa menina, a medida que foi crescendo, foi identificando uma dor insuportável no estômago toda vez que ficava com muita fome. Ficava com uma dor tão forte que só melhorava quando deitava de bruços com uma almofada debaixo da barriga. Precisava de uma pressão para passar. Será que era essa dor que ela sentia enquanto bebê? 
Nunca saberemos...
Quando ela foi crescendo, e as memórias vêm em flashes, um grande ponto de interrogação cresceu junto com ela. E a grande pergunta apareceu: "quem sou eu?"
Quero começar lá atrás, qdo eu era pequena...nasci no Rio de Janeiro há 43 anos, morava em Ipanema, bairro nobre da cidade maravilhosa, sou a irmã do meio de mais 2 irmãs, hj todas muito queridas e amadas, mas já tive meus momentos de desavença total. Sempre me senti um peixe fora d'água, uma pessoa que não se encaixava muito naquela família. Minha mãe sempre foi uma pessoa que tinha uma espada na mão para nos defender, resolvia tudo e todos os problemas que poderiam aparecer pela frente, porém...não era mto chegada a abraços e carinhos. 
Quem era essa menina? Eu não sabia essa resposta, o problema era eu ou era porque eu não me encaixava nos padrões? Cresci ouvindo que eu era implicante, que eu era difícil, apanhava porque era diferente, desobediente.
Mas essa menina gostava mesmo era de andar de bicicleta, andar de short e havaianas (mas eram aquelas amarelinhas com branco, nas opções verde água ou azul calcinha), de correr atrás das bolinhas de sabão na praia pq achava lindo o brilho delas, adorava o mar, mergulhar, furar as ondas em frente ao posto 9, sempre curtiu olhar o céu, as estrelas, a lua, ficava pensando o que tinha lá? Por que nosso planeta não cai? O que sustenta? Amava o cheiro e os sons do verão no Rio de Janeiro, as cigarras cantando anunciavam a sua chegada, o cheiro do "caladryl" era cheiro de férias, praia, brincadeiras. Os cheiros sempre marcaram momentos da minha vida. Outro cheiro que eu amava era do plástico que encapava os cadernos, de ir até a Casa Mattos para comprar nosso material, do barulho do click da maleta da escola fechando, do cheiro de suco de uva da minha lancheira. Gostava de olhar a vida através do acrílico colorido, das cores dos lápis de cor que vinham no estojo de madeira novo, do seu cheiro. Sempre gostou de cores, do conjunto de camiseta laranja com short cinza de florezinhas laranja, do vestido turquesa, da bota preta de um material que parecia verniz, do sapato tipo "cavalo de aço",  tudo que tinha cores me chamava atenção. Adorava ir para a casa de Petrópolis, lá tinha um caminho de pedras que ía da casa até a piscina, e eu amava observá-lo, ía descendo e uma piscina ía se desvendando sob meus olhos. Íamos muito para um hotel chamado Promenade, e a madeira que revestia, as mesas e cadeiras, tinham um cheiro peculiar, a manteigueira parecia uma mini nave espacial, ela era redondinha de vidro com um mini espaço para colocar a manteiga. Tenho lembranças de cheiros e sabores bons e ruins, da água ferrosa, da brevidade de São Lourenço, do Lanjal de Friburgo, da água enchendo uma panela na bica em Paty, do carro do Tio Thomás e dele falando "manteiguinha" quando saíamos de uma estrada de terra e entrávamos no asfalto, das férias de Ubatuba quando fui colher mexilhões na pedra com meu pai, de andar a cavalo e cair, em Santa Maria no Rio Grande do Sul, da música "Only You". 
As férias sempre foram sinônimo das minhas felicidades e angústias. Não gostava de andar de carro, tinha medo das serras, o cheiro das maçãs e bananas me enjoavam, o toque das minhas irmãs era motivo de briga. Nem só de boas sensações vive a criança, rsrsrs.
Quando era bem pequena, lembro de ter estudado numa escola chamada Marechal Hermes, não tenho muitas memórias dessa época, apenas que na hora do lanche, tinha uma garota que mastigava de boca aberta ao meu lado, o que, desde aquela época, me causava uma irritação horrível. Ok, me sentia irritada com alguns barulhos, e com alguns movimentos, nunca entendi o que era isso, mas não conseguia comer ao lado da minha mãe, pq ela fazia um barulho com a garganta enquanto mastigava, ela tinha uma outra mania de tirar o esmalte com o dente - BAM- outra coisa que me causava irritação, eu queria matar (não no sentido real, mas era algo que me tirava do sério), meu pai, depois do jantar tinha mania de limpar os dentes fazendo um barulho puxando o ar entre eles, pronto, isso já era motivo para ir para o quarto e não ficar do lado deles, eu até tentava, mas não conseguia, ficar com minha família após as refeições sempre foi caótico para mim. Atualmente sei que existe um transtorno chamado Misofonia. Os acometidos sofrem com determinados barulhos repetitivos que geram reações de fúria.
Aos domingos, o dia era divido assim, praia de manhã, almoçávamos na casa da minha avó paterna (e vou fazer uma pausa no quarto da minha tia Rosimar mais pra frente) e no final da tarde íamos para a casa da minha avó materna, era o dia do encontro familiar, visitar avós, ver tios e primos. 
O apartamento dos meus avós paternos,  tinha entrada pela Av. Nossa Senhora de Copacabana e Av. Atlântica, o dela dava para Av. Nossa Senhora de Copacabana, tinha um elevador com porta pantográfica que me dava um medo danado, aquele com portas de grade. Era um apartamento grande, minha tia Rosimar morava com eles, era uma mulher a frente do tempo dela, e em particular, o quarto dela era o único ambiente que eu amava naquele apartamento, era um quarto de uma pessoa que queria ser artista, tinha muitas fotos, abajur com rendas, plumas, era um lugar mágico, ela customizava camisetas quando ninguém fazia isso, falava de reiki sem que ninguém soubesse o que era, era vegana, se alimentava de forma saudável quando ninguém pensava sobre isso. A vida as vezes é muito irônica, pq ela não fez sucesso, não conseguiu viver da arte, e morreu de um câncer de fígado. 
Meu avô era engraçado, adorava jogar baralho, minha avó, eu não gostava dela - mas acho que ela devia ser uma mulher bem interessante, pois tinha muitas habilidades para a música- não tinha nenhum apego, nosso contato era apenas no domingo a tarde. A família era muito musical, minha avó, meus tios e tias, tocavam piano e violão, então os encontros de domingo, natais e ano novo, eram uma alegria só, mas não gostava da minha avó!
Meus avós maternos moravam na rua Raul Pompéia, uma rua paralela ao apartamento dos avós paternos, uma atrás no sentido de quem vinha da Av. Copacabana. Eu gostava da minha avó materna, mas nunca gostava de estar lá, ela tbm ficava mastigando um restinho de comida com os dentes, me irritava muito, e as vezes quando tínhamos que dormir lá, eu dormia em um colchonete no quarto com eles, e meu avô roncava muito, eu chorava debaixo dos lençóis. Meu avô adorava futebol, e domingo a tarde ele ligava aquele radinho dele e "radio globoooo, o relógio marcaaaa!" Meu deus, final da tarde, o som do rádio, será possível uma criança sofrer de depressão? Habitavam na mesma casa, meus tios e alguns canarinhos, e a gata Gigi e eu amava vê-los cantar, meu avô alimentá-los. Quando meus pais viajaram para Buenos Aires, fiquei com minha avó e como foi ruim, eu só queria que minha mãe voltasse, tive dor de ouvido, furúnculo, tudo de ruim. 
Engraçado, não me lembro de falar sobre isso com ninguém, eu chorava, e sabe o que é mais engraçado? Não lembro das minhas irmãs lá.
Morei no Rio até os 10 anos de idade. Olhando assim parece que não era feliz, mas eu era, meus pais nos proporcionaram uma infância bem feliz, nascemos e vivemos no berço na Bossa Nova, mesmo assim, eu não me encaixava! Eu competia com minhas irmãs e com quem quer que fosse, tinha uma necessidade de chegar em primeiro lugar, em ser melhor que elas em alguma coisa.
Certa vez minha mãe me colocou na natação na AABB (acho que era), eu não gostava de ter que ir para a natação, mas obedecia. Eu até que gostava de nadar, mas nunca aprendi a mergulhar de cabeça,  tinha medo e todas as vezes que tentei, entou água no meu nariz, ódio!. Para segurar o ar eu fazia uma careta tão feia, quase encostando a boca no nariz fazendo um bico, como se esse bico fosse tapar as narinas.  Um belo dia ela me fez participar de uma competição (eu falei que gostava de competir com minhas irmãs, não com os outros), e eu não queria de jeito nenhum, ela me obrigou, como eu ía pular de cabeça na piscina se eu não sabia, e como ía segurar o ar, eu era uma fraude...rsrsr!!!Bem, chegou o fatídico dia, e para mergulhar, eu dei uma barrigada na piscina, nem precisa dizer que entrou água pelo nariz, que minha barriga dói até hoje, :o). Acho que não ganhei, mas recebi uma menção por ter participado. Saí da piscina dizendo que nunca mais ía participar de competição.
Mas tinha algo que eu era melhor que elas, nos esportes! Até os 10 anos fiz ballet na minha escola, era ballet clássico, sempre dancei melhor, eu adorava as fantasias das apresentações de final de ano, mas teve uma em especial que eu amei que era a da mexicana, cheia de brilhos e paetês, linda. Estava entrando na sapatilha de ponta quando nos mudamos do Rio, mas esse é um capitulo para depois.













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